Dez anos de blockchain. E agora?

Tecnologia rapidamente se mostrou viável para transformar fluxos de pagamento ao abrir espaço para novos modelos de distribuição.

Apesar do crescimento sem precedentes nos últimos anos, os conceitos que embasam o que hoje chamamos de Blockchain n já eram debatidos no meio acadêmico nas décadas de 1970 e 1980, com o movimento de cibersegurança. Uma aplicação prática mais avançada surgiu em 2008, com a ideia do bitcoin. Desde então, toda a evolução aconteceu de forma muito interessante, especialmente com as capacidades inauguradas pela criptomoeda conhecida como ethereum e seus contratos inteligentes, a partir de 2015.

Fazendo uma análise sobre sua ascensão e consolidação na última década, o blockchain rapidamente se mostrou viável para transformar fluxos de pagamento ao abrir espaço para novos modelos de distribuição. Só que, em pouco tempo, pudemos notar um potencial enorme para diversas iniciativas que iam além da transferência de recursos. A partir de então, o maior marco da tecnologia foi a mudança na forma como a enxergamos. Mais do que a inovação trazida pelo conceito em si, passamos a observar de perto o impacto positivo que ele pode gerar nos negócios.

É nesse ponto que começamos a visualizar um grande espaço para mudanças disruptivas provocadas pela aplicação de um banco de dados ainda mais amplo, e com informações descentralizadas de forma mais independente, do que o próprio blockchain. Foi com a DLT – sigla em inglês para “distributed ledger”, ou tecnologia distribuída de livro-razão – que se abriu um novo paradigma sobre a forma como os dados passaram a ser coletados e comunicados, abrindo caminho para revolucionar o modo como indivíduos, empresas e governos realizam transações. Isto permite que processos burocráticos, como o processamento de pagamentos, sejam mais rápidos e confiáveis.

Conceitualmente, o blockchain – assim como a ethereum e a DLT – já deixou de ser tendência e virou realidade. Com base nele, instituições financeiras já estudaram e fizeram provas de conceito sobre as tecnologias disponíveis e seus possíveis usos. O que nos leva ao atual momento – que é de implementação, quando começamos a ver iniciativas reais sendo executadas, mesmo que ainda tangenciem os grandes processos de negócios.

Já encontramos alguns produtos bancários que utilizam o blockchain concentrados no segmento de Atacado. Porém, mais do que o produto em si, o interessante é o que ele proporciona: uma nova visão que estimula mudanças na evolução do paradigma das empresas e instituições financeiras envolvidas.

O blockchain também pavimentou uma estrada no que diz respeito à infraestrutura e aos modelos de segurança e de governança para pensarmos no médio prazo. Do ponto de vista tecnológico, as soluções baseadas no conceito são relativamente maduras, mas instituições financeiras de todo o mundo ainda estão consolidando uma visão sobre como utilizá-las da melhor forma ao experimentar novos modelos de negócio.

Temos visto casos em outras áreas, inclusive no Brasil, como na cadeia de produção de alimentos. Bebemos dessas fontes de inspiração para avaliar o que conseguimos adaptar para o setor financeiro – e essa troca também vale para o outro lado. Na indústria financeira, entretanto, temos um ambiente mais sensível e regulado – o que retarda uma adoção massiva. Temos acompanhado as evoluções regulatórias ao redor do mundo, num processo gradual que talvez nos permita observar na indústria, ao longo dos próximos anos, os primeiros grandes casos de transformações a partir da aplicação do conceito.

Instituições e consórcios atuam para o desenvolvimento da tecnologia e sua implementação. Cada consórcio é constituído sobre um propósito. O R3, por exemplo, tem como uma de suas missões promover uma ampla colaboração entre seus membros envolvendo o uso do blockchain em benefício do mercado financeiro, além de construir uma plataforma com a participação de diversos players que também estão olhando para o tema. Com isso, torna-se muito mais efetivo o diálogo com instituições que enfrentam os mesmos desafios para construir uma plataforma comum, gerando uma visão unificada sobre o uso da tecnologia no mundo todo – e superando os desafios de promover uma evolução colaborativa entre empresas que competem num mesmo mercado.

Para 2019, nossa maior expectativa é a evolução do blockchain e o seu uso efetivo em processos relevantes. Sob a liderança da Febraban, que tem tido um papel muito importante ao centralizar as discussões sobre os primeiros passos da aplicação do conceito no mercado financeiro nacional, estamos empenhados em projetos com a premissa de facilitar o fluxo de abertura de contas digitais de forma segura em todos os bancos. Uma das ideias é assegurar que os dispositivos utilizados para abrir contas não sejam fraudados. Caso alguma irregularidade seja identificada, outra instituição também será avisada caso o mesmo dispositivo seja utilizado na abertura de outra conta. A solução aumenta a segurança do sistema bancário como um todo e é apenas uma dentre tantas possibilidades que o blockchain proporciona.

É provável que em cerca de dois anos comecemos a notar um uso mais massivo em instituições financeiras, inclusive no Brasil. Um dos exemplos viáveis é aumentar a integração de transações financeiras entre bancos em diferentes países. Esse processo parte de uma premissa que lembra o surgimento do bitcoin em 2008, porém com maior conformidade com questões de controles de divisas e prevenção à lavagem de dinheiro em cada jurisdição.

Diante de tudo o que estudamos, concluímos que é muito difícil atingir um ambiente de completa desintermediação, apesar de entendermos que esse pensamento ainda é muito presente entre os principais expoentes e entusiastas da criptoeconomia. Em certa medida, há uma percepção equivocada em parte desse grupo de que, por trabalharmos em um banco, temos uma posição contrária a essa tendência.

Reconhecemos que há espaço para uma mudança efetiva no papel atual dos intermediários passando a agregar outras propostas de valor aos ecossistemas de negócios, à medida que a tecnologia possibilitará tornar mais fluidas as transações entre pessoas e instituições em diferentes países. No futuro, talvez seja possível realizar uma transferência para alguém no Japão de forma tão simples quanto enviar um e-mail. O fluxo financeiro atual de uma transação desse porte permanecerá o mesmo, porém de forma muito mais ágil.

Imaginar que tipos de novidades ainda virão com base no blockchain seria tão difícil quanto perguntar ao Steve Jobs, no lançamento do primeiro iPhone, se ele esperava que hoje o mundo teria serviços como Airbnb e Uber, entre outros. Essa tecnologia não só entrega a plataforma como, ainda mais importante, ajuda a quebrar paradigmas. O que as mentes criativas construirão a partir disso? Impossível prever. Há um mar de possibilidades, como o fomento à economia distribuída, processos de pagamento mais justos e custos de transação reduzidos.

Fonte: Computerworld

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